quinta-feira, 22 de setembro de 2011
família alargada
terça-feira, 13 de setembro de 2011
aos soluços
parece que isto sai aos soluços. passo meses sem pensar nisto. dá para pensar que sentido terá. acho que no fundo há a ideia de o dar um dia ao joão, como lembrança de um tempo de que ele pouco recordará. mas é capaz de haver mais alguma coisa, não sei.
um gato e eu cansado
sexta-feira, 24 de junho de 2011
o luto
já chorei muito por causa deste gato pateta. desapareceu numa noite de domingo, chovia muito, trovoava. pode ser que tenha ficado assustado. mas não: ele não era de ter medo dessas coisas. deve ter ido correr mundo, sei lá o que se passa na cabeça de um gato. mas são muitas as saudades: não há outro bicho assim, tão meigo, tão cúmplice nas brincadeiras. as coisas invisíveis
terça-feira, 10 de maio de 2011
tradutor traidor
nota do tradutor
Não é obviamente tarefa do tradutor sugerir, e muito menos impor, a sua leitura, sequer “uma” leitura, aos leitores das obras que traduz. Mas por outro lado, dando cumprimento à sua parte no “pacto de lealdade” que tacitamente com eles estabelece, cabe-lhe, na minha opinião, fornecer os elementos que o seu contacto próximo com o original lhe permitiu recolher, de modo a que o leitor – muito embora sabendo que o que lê é a versão portuguesa de um livro escrito noutra língua – tenha uma experiência o mais próxima possível da leitura do original. O que implica desde logo utilizar na tradução as mesmas ferramentas e recursos usados pelo autor, sem procurar eliminar ou atenuar os possíveis efeitos de estranheza do original através da sua reformulação de acordo com normas ou convenções consideradas mais próximas do leitor.
No caso deste livro, o problema poderia pôr-se, dadas as especiais características da escrita por que David Vann optou nesta história. É possível que a leitura deste livro, pelo menos a princípio, seja acompanhada por uma sensação de estranheza e de um certo “desconforto”, que resulta da singular construção da narrativa, das frases longas e “descosidas”, assim como da pontuação utilizada, ou da sua ausência. Este “efeito de perturbação” sentido pelo leitor, ao ser-lhe negado o apoio das convenções das normas de escrita mais frequentes, esbate-se depois à medida que a cadência das frases vai impondo uma espécie de toada interior que se sobrepõe às pausas e ao ritmo que uma pontuação convencional poderia determinar. Ao mesmo tempo, apercebemo-nos que esta escrita é também uma das mais poderosas ferramentas utilizadas pelo autor para criar este universo sufocante, inquietante, que sentimos avançar para um desfecho inevitável que não sabemos ainda qual seja, mas que nos compele a prosseguir.
Além disso, a integração do discurso directo no corpo do texto, sem nenhum dos sinais identificadores da norma (aspas, travessão, etc.), aproxima a narração – feita na primeira parte do ponto de vista de uma das personagens, e de outra na segunda parte – de um longo monólogo, seguindo a corrente de consciência de um virtual narrador. O resultado é um poderoso efeito de experiência vivida, de narração quase autobiográfica, que depois outros elementos nos obrigam a pôr em dúvida, sem nunca definitivamente a pôr de parte.
Importará a este propósito saber que a história aqui traduzida faz parte de um livro (“Legend of a Suicide”) que inclui várias outras histórias e inclusive um “post scriptum” com uma entrevista e uma pequena crónica do autor, intitulada “As armas do meu pai”, onde conta brevemente o suicídio do pai, em circunstâncias coincidentes em vários pontos com a narrativa de “Sukkwand Island”. Por outro lado, as personagens das demais histórias têm pelo menos nomes idênticos aos que surgem aqui, o que poderia confirmar o carácter autobiográfico da narração, se não fosse um curioso “efeito de refracção”, chamemos-lhe assim, em que a imagem surge suficientemente desfocada e desfigurada para que, sem deixar de remeter para essa identidade, não seja possível fazer coincidir as duas “versões” da história. Na realidade, só os nomes, os locais e um ou outro facto central coincidem, deixando patente a recriação do universo de onde partem as várias narrativas. Fica, como resíduo, a ideia de um acontecimento imensamente traumático que a escrita de certo modo “exorciza”, se quisermos aceitar tal dimensão para a escrita de ficção.
Não é indispensável, porém, a leitura das outras histórias para sentirmos a tremenda pulsão de medo e de inquietação que vibra nas páginas de “A Ilha Sukkwand”, um efeito em grande parte decorrente do modo como está escrito: uma pontuação rarefeita que, libertando o texto das pausas convencionais, impõe à narração um ritmo próprio, reforçado pelas frases longas, com um extenso encadeado de elementos quase sempre ligados apenas pela conjunção “e”. A isto acresce um vocabulário elementar, repetitivo, uma ausência total de figuras de estilo e de efeitos retóricos, onde mesmo o recurso a metáforas se pode contar pelos dedos – tudo o que adere e parece reflectir o universo fechado da narrativa, praticamente sem aberturas para o exterior da ilha. A escrita é assim também como que um espelho da natureza, elementar, livre ainda da intervenção do homem civilizado, e onde a vida das personagens se resume praticamente às actividades primordiais da subsistência, comer, dormir, caçar, pescar. Daí a importância de respeitar na versão portuguesa as opções do autor – de estilo, de registo, de vocabulário, de pontuação, inclusive – porque disso depende em grande parte a tensão e a densidade de toda a narrativa.
Digamos então que esta nota, ao procurar expor brevemente a estratégia seguida para aproximar a tradução do original, cumpre uma função semelhante à representação da escala nos mapas geográficos destinada a indicar a distância entre a chamada realidade e a sua figuração.

