quarta-feira, 31 de março de 2010

para ser mosqueteiro


O João anda entusiasmado com um dvd das aventuras de D'Aratacão e os seus moscãoteiros. Vejo-me agora investido no papel de Filipe, e a Cereja no de Julieta, que imagino serem personagens dos filmes. Por vezes trocamos: sou eu o D'Artacão e ele o Filipe... Quando me calha ser eu o Filipe tenho de o tartar por papá. Por isso procurei uma compromisso: se estiverem outras pessoas por perto não me trata por Filipe. É que não quero que julguem que é esse o meu nome, expliquei. Aceitou.
Hoje de manhã, enquanro eu recolhia a roupa do estendal (pensaei que ia chover, mas afinal...) foi-me fazendo as recomendações que achava necessárias: "Se queres ser moscãoteiro, primeiro tens de ter uma espada; segundo, tens de crescer; terceiro, tens de ter um chapéu; quarto, tens de ter uma capa..." Havia ainda uma quinta condição, mas já não me lembro. Vê-se que é coisa séria. Mais do que a de ser dragão: isso bastou-me enfiar um caixote na cabeça (o que dava aos meus rugidos o eco cavo que convinha) e fugir à frente da espada que ele me apontava. Mas não escapei...
Depois (mas só depois...) fomos para a escola. São férias "escolares" e os meninos passam o dia na brincadeira, no recreio. Hoje o João insistiu em levar a espada (uma tira de plástico, mole e que não magoa). A senhora que lá estava não deixou: podia magoar os outros (mesmo depois de lhe ter mostrado que aquilo dobrava ao menor toque). O João ficou desolado. Chameio-o de lado e disse-lhe que ia esconder a espada "lá em cima" e que quando o fosse buscar íamos espadeirar pela rua fora. Riu-se e achou uma boa ideia. E lá ficou. Aliás, tinha uma missão a cumprir. Ontem, ao jantar, contou-nos que nesse dia tinha "evitado duas lutas". Uma entre a Inês e a Juliana. A Inês Justo?, perguntei, pensando que se tartava da grande amiga dele. Não, essa não tinha ido. Era a Inês. Mas depois a Juliana empurrou-o contra o escorrega e ainda o magoou um bocadinho. Hoje estava disposto a evitar mais lutas, mas não ia deixar que o empurrassem contra o escorrega.

terça-feira, 9 de março de 2010

hienas ao pequeno-almoço

hoje o joão levantou-se muito cedo. ouvi uns passinhos miudinhos e daí a pouco aparece ele: bom dia. e salta para dentro da minha cama. Hoje é um leopardinho. Diz ele: podemos comer hienas ao pequeno-almoço, pai? Eu reponto logo: ó joão, hoje não. não há nenhumas, comeste-as todas ontem. E ele: E então que vamos comer hoje? Eu proponho: uma girafa e duas gazelas. Ele acha bem: "então eu como a girafa e uma gazela e tu a outra, está bem?". Digo que sim. e depois de mais umas macacadas e umas negociações fazemos o plano do dia (se estiver sol, vamos à feira da ladra. se estiver chuva vimos par casa e vamos caçar mais hienas), levantámo-nos e começamos a preparar-nos para ir para a escola. Há uma novidade no largo: um camião que veio retirar um contentor de entulho. O joão tem de assisitir a tudo, claro. Eu vou preparando o peqeuno-almoço, faço a barba, etc e ele sempre à janela. Quer ver tudo "para depois contar tudo à mãe".

segunda-feira, 8 de março de 2010

a vida é um teatro
A Cereja está em Paris. até 5ª feira. Ontem fomos levá-la ao aeroporto. Sem dramas, sem lágrimas, o joão despediu-se dela, tranquilizou-se (voltas na quinta, não é?) e escolheu uma prenda para a mãe lhe trazer. Tínhamos combinado dar a tudo o ar de coisa normal e sem história. Nada de "agora vê se te portas bem, a mãe não está cá, tens de ajudar o pai, etc etc." tudo coisas que transformam o acontecimento, mesmo sem darmos por isso, em qualquer coisa de "dramático". Tudo se passou bem. Acha´mos nós.
Mas no regresso a casa, apesar de tudo, a brincadeira que o joão propôs foi fazermos uma avião, com cadeiras, em que eu era o piloto e ele o passageiro. Fomos duas vezes a Paris. A preocupação central era sempre a mala: onde a pôr para não se perder. Provavelmente por duas razões: a cereja tinha deixado uma mala à solta, um brinquedo que ele logo adoptou. E talvez também por ainda se lembrar da odisseia das nossas malas perdidas na viagem a Turim.
Mas lá no fundo, lá no fundo, também a necessidade de esconjurar medos ou ansiedades com a viagem da mãe.
É uma coisa que ele por vezes faz. Chega a vacsa e pede: vamos brincar à escola. Ele faz de educadora, eu de joão e a mãe de outra menina. E aproveita para se desfazer de sentimentos de dúvida ou outros que possa ter trazido da escola. Uma vez, no início desta escola, em que ele se mostrava renitente em entrar na escola, em que não dominava ainda o novo espaço, nem conhecia os colegas, andou mais de uma semana num estado de grande ansiedade. Um dia brincamos às escolas. Eu fazia de joão e desatei a chorar porque "queria ir para casa, não queria ficar na escola". Ele abraçou-se a mim (no papel de Marta, a educadora) a consolar-me, a dizer que ali gostavam todos dele. Percebemos que as coisas iam correr bem. E assim foi.
Também quando eu tove um qcidente, em que fiquei engasgado e tive de ser socorrido pelo Inem: o joão ficou muito impressionado. E nos dias que se seguiram tivemos de várias vezes representar a cena, fazendo ele o meu papel, às vezes, outras veezs de médico. E creio que desse modo se tranqulizava, revivia a cena, e se desfazia da ansiedade que tudo aquilo lhe tinha causado. Hoje fala disso normalmente.
O teatro como terapia, pode dizer-se. E foi ele que o descobriu. É sempre ele que propõe as sessões e o tema. Espero que isto se mantenha assim por muito tempo. Faz-lhe berm e permite-nos adivinhar o que vai naquela cabecinha.

há prioridades na vida
Com a Cereja em Paris, cabia-me hoje acordar o joão, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo à escola. Liguei o rádio da casa de banho, fiz barulho a lavar-me e a preparara o pequeno-almoço e ele.... nada. Só quando abri a janela completamente é que acordou. Levei-o ao colo, com ele literalmente colado a mim para a mesa do snack, na cozinha. Levou uma manada de vacas e cavalos com ele, para comerem do prato dele. Pedi-lhe que dissesse quanto queria de papa: ia deitando e ele tinha de dizer stop, quando chegasse. Comeu tudo. Fiquei contente, porque me chateia muito ver desperdiçar comida. Depois tinha de o convencer a "andar depressa" para chegarmos a tempo à escola. Vsetir-se, lavar-se, fazer a mochila (com o estojo para a aula de inglês). Durante o pequeno almoço quis saber como se dizia "tenho um urso" em inglês, Disse-lhe. "Então se eu tiver dois ursos tenho de dizer "I have two bears". Sim. E três, e quatro, e cinco – e lá foi recitando a lição. Depois, ao lavar os dentes lembrou-se que não tinha posto os arreios ao cavalo. Lá tive de ficar à espera que ele encontrasse o freio e as rédeas e enfiasse o cabeçal num dos cavalos. E nada de mostrar impaciência: na vida há prioridades!


sexta-feira, 5 de março de 2010

A Ilha do João

O João tem uma ilha. Ele e o ursinho, aliás. Tudo acontece naquela ilha. O João acorda e começa a contar o que por lá vai. Vou buscá-lo à escola e no caminho de volta ele vai relatando os casos do dia da ilha, em que ele e o ursinho têm sempre um papel decisivo. Incêndios (sobretudo incêndios, com muitos bombeiros e carros de bombeiros e pessoas a salvar), tempestades, barcos a naufragar... É uma vida atarefadíssima. E que invade todo o quotidiano do joão: as histórias sucedem-se não há nada, nenhum aspecto da nossa vida que escape ao seu reflexo na ilha. Às vezes queixava-se por lá não ter amigos. E aos poucos foi aparecendo outra gente. Primeiro a mãe do Ursinho, Carla de seu nome, que era parecida com a mãe. Vagamente, de uma forma quase só implícita, era também a mulher do joão. Apareceram depois duas irmãs: a Carla e a... Carla. E mais tarde uma vizinha que tomava conta das irmãs de vez em quando: Carla também. As histórias invadiam o nosso quotidiano. A Cereja chegou a preocupar-se: aquelas fantasias não seriam exageradas? Que significavam? Não seria uma fuga ao real? Eu gostava de o ouvir, não alimentava a fantasia, mas não a cortva, nem a desmentia, nek lhe apontava as contradições. Na ilha tudo era bem sucedido, o joão tinha lá tudo o que precisava. As coisas que aqui não tinha, tinha-as lá a dobrar. O que eu fazia, também ele fazia, ele eo ursinho, claro. O que eu tinha, ou comprava, ou lia, ou comia, tudo isso também ele, e o ursinho, sempre, faziam lá. A lha era de certo modo um mundo de compensação das pequenas frustrações ou contrariedades: era o que para todos nós é a fantasia. Mas também o ocupava, e talvez o mundo se complicasse também para ele.
Talvez inspirado numa cantiguinha que eu tinha feito para ele, para o embalar (O João Bandoleiro, em que ele foge a cavalo para a Madeira) a ilha passou a chamar-se a certa altura "Madeira".
Um dia, de manhã, quando a Cereja o foi acordar, ele disse: houve uma trempestade na Madeira e morreram todos. a mãe do ursinho, as irmãs, a amiga, todos.
Ainda hoje não sei porque as coisas se passaram assim. Seria porque começava a tornar-se pesado para ele? Complicado?
Agora, se falava neles era no passado: quando "fazíamos" assim, "era" assim, "fomos" aqui ou ali... Aos poucos pareceu-me que toda a quela gente recomeçou a existir, mas no passado, ou lá, na ilha, na Madeira, mas ele (e o ursinho) aqui. Ia lá às vezes visitá-los. E quando pus na sala um telefone de baquelite, dos antigos, meramente decorativo, que a Lurdes me tinha dado, esse telefone passou a servir para ele telefonar para a Madeira e para falar com eles.
Falava agora na necessidade de construir uma casa nova. Aqui. As nossas conversas no regresso da escola era sobre como construir casas, mobílias, telhados... Um dia uqnaod passámos no alfarrabista, onde por veezs paramos para dizer olá ao sr. Antunes, ele disse-lhe: sr antunes, para o ano vais ter muitos livros? É que eu ando à procura de uma mulher para casar e vou fazer uma casa nova e vou precisar de muitos livros. O Antunes riu-se e disse-lhe que aquilo ia custar muito dinheiro... E que o pai não lho podia dar. Sem me dizer nada, aquilo deve ter ficado a trabalhar-lhe na ideia. Nesse dia foi buscar o mealheiro que tinha no quarto de cima e levou-o para o quarto dele. Daí a dias, disse ao Antunes: já trouxe o mealheiro para baixo e vou começar a juntar dinheiro. Nem eu nem o Antunes percebemos de que estava ele a falar. Só mais tarde relacionei as duas conversas...
Noutro dia, estava a brincar cá em casa com o Rodrigo, foi direito ao telefone e disse: olá, era só para saber se vocês estavm bem e diz à tua mãe que vou arranjar outra mulher e que vou casar com ela. O Rodrigo olhou para mim com uma expressão de puro espanto.
Aos poucos as coisas foram-se diluindo. O Ursinho continua aqui, presente, atento, activo. Também presente em "carne e osso" porque invariavelmente coincide com oursinho de peluche que há muito tempo lhe comprámos no ikea e que se tornou inseparável no dia a dia e nas noites do joão. E fica triste e preocupado, quando se esquece dele em casa ou na escola. É um bom amigo. Mas na Madeira só ficaram todos os outros, mas distantes, "a mãe do ursinho" (mas já não a mulher do joão, ou pelo menos não claramente) e os irmãos e irmãs (muitos, não sei ao certo quantos). Há menos coisas a acontecer lá. Ou ele não está tão virado para lá. E já não é claramente "a Madeira" ou a "ilha". Só se lhe perguntamos onde se passou qualquer coisa que ele conta, só então diz que foi na Madeira, ou na ilha.
Agora, em todas as nossas conversas, é só o Ursinho. Ou "eu e o ursinho" ou "o ursinho". As histórias enfiam-se umas nas outras, no caminho da escola até casa e depois aqui até ao deitar, tudo pode acontecer e sempre ele e oursinho lhe dão resposta. E ainda também ele e o ursinho têm tudo, fazem tudo, a dobrar do que nós temos ou fazemos. Vemos um livro? Ele e o ursinho têm um igual. Matam tigres, caçam leões, têm carros, tractores, carros de bombeiros, constroem casas, apagam incêndios, sei lá. Com farrapos do que vai acontecendo aqui em casa, na escola, de coisas que ouve, de coisas que os colegas dizem ou fazem, ele constrói dia a dia, momento a momento, incansavelmente, um fio interminável de histórias e acontecimentos uns mais fabulosos do que outros. Sempre sem contradições sem inverosimilhança, pelo puro prazer de contar. A maior parte das vezes ouço o que ele vai contando. Às vzes com grande exclamações de surpresa, de admiração, de medo. Que às vezes ele tem de me sossegar: Ó pai, não tenhas medo, que isto é só no faz de conta.


Depois

Quando o joão começou a falar, pouco depois já começava a querer contar as coisas dele. Entarameladas, aos saltos de lógica e no fio da história. E houve um dia, acho que melembro disso, aparaceu a palavra "depois". Foi uma revolução: tudo ganhou sentido, tudo se encadeava – a história começava e depois fazia assim e depois fazia assado e depois disse e depois fez e depois e depois e depois... assim já se podia contar qualquer coisa.
Uma palavra muda tudo.
Ainda hoje me interrogo sobre de onde vêm as coisas que lhe ouço pela primeira vez. Sai-se com um "normalmente" e eu pasmo. Normalmente, as coisaa são assim... Ou, como há dias: "quer dizer" (Eu estava a falar com o ursinho, quer dizer, ele só dizia "eh", porque ainda é pequenino). OU palavras que ele colecciona de coisas que ouve aqui e ali, mas que para mim me soam inesperadas: hoje de manhã a veterinária esteve a "auscultar" todos os cavalos e os potros com um "estetoscópio", assim, pronunciado sílaba a sílaba.
Outras não, porque assisti ao nascimento delas: sela, freio, crina, estribo, arreios e toda a parafernália da cavalariça e dos picadeiros, os nomes dos cavalos e sei lá que mais...
Ou as partes do corpo humano, ou o nome dos animais (mesmo ornitorrinco, mesmo os animais "extintos", que conhece pelas imagens e pelo nome...). Ontem disse à mãe: vais à biblioteca? traz-me livors sobre o corpo humano e sobre coisas para aprender. Ainda tenho muitas coisas para aprender.
Começou a reparar que cada livro traz a imagem dos outros livros "da colecção" e começou a pedi-los. A Cereja "descobriu" o filão das bibliotecas municipais e agora temos andado a sacar sistematicamente livros e dvds, usn atrás dos outros, quatro de vcada vez. E o joão continua voraz a aprender coisas novas, a arrumar o mundo e o universo (sim, poruqe nisto entram já estrelas, planetas, cometas, astronautas, e sei lá que mais). Criado o mundo há que dar um nome às coisas e que as dividir pelos seus mundos e lugares, é uma liçaõ antiga como o mundo.



quarta-feira, 17 de junho de 2009

a gaivota (e as lições morais engatilhadas)



Anda aqui no largo, há dias, uma gaivota desvairada com um balão que ficou preso num fio eléctrico no beco dos Agulheiros. Desde manhã cedo (deve ser a primeira coisa que lhe vem à sua ideia de gaivota) aí vem ela em grasnidos roucos de medo ou de raiva a girar á volta do malfadado balão. Afasta-se um pouco, dá umas voltas naqueles berros tremendos, e cai sobre o inimigo fatal, desviando-se só a curta distância (acho que ainda não chegou realmente a vias de facto). Já toda a gente deu por isso. Aquilo incomoda, interpela-nos. Há nesta canseira qualquer coisa de insano, de lastimável, de irrisória, que nos deixa divididos entre a fúria, a pena, a impotência. Sabemos que não podemos chamar à razão a gaivota (que tem outras razões, que serve outros fins e senhores, que não os nossos) e nunca aos seus olhos de gaivota aquele balão deixará de ser o que quer que nela desperta tal medo ou tal raiva. E nem sequer está na nossa mão livrá-la de tal enguiço: o balão está inacessível aos nossos esforços de o soltar dali. Poderíamos rir-nos daquela insânia inglória - não há no estúpido, no ridículo, no irrisório balão nada que evoque o leviatã. a moby dick que daria grandeza e pathos à porfia da gaivota. Mas não nos deixa rir aquela persistência, aquela teima, como uma missão pessoal e imperiosa. Nem sequer o consolo de saber que seria esse o destino das gaivotas - não, há aqui qualquer coisa de único, de uma escolha, de um destino. No primeiro dia, por alguns momentos mais uma ou duas gaivotas acorreram, chamadas pelos gritos desesperados. Houve mais uns grasnidos, mais umas voltas à volta do balão, mas logo se desinteressaram e foram á sua vida de gaivotas que nenhum destino marcou com tal ferro. E aí anda ela, sísifo sem glória e sem descanso.
E nós habituados que fomos a ver um mestre na chamada natureza lá deixamos aparecer a cabecinha à espreita da moral engatilhada. É antiga esta mania de querer ver lições no que não tem nenhuma lição a dar. E nisto não há caeiro que nos valha. Nem sequer o bom senso a dzier-nos que nunca as parábolas, nunca os conselhos, nunca a experiência dos outros ensinou o que quer que seja a ninguém. Que só o que nos passa pela pele nos serve, que o que vivemos, o que sentimos, o que aprendemos assenta semprer na cartilha do (como diz a outra) nunca nada de ninguém.
Mas a gaivota, e tem que ser, acoerda em mim o mesmo sentimento de impotência, de tristeza, também de incontida fúria, diante do sofrimento que vejo como inútil, como irrisório. Sei que ele vem dos fundos de outros sofrimentos antigos e irredimíveis, sei que são agora apenas sombras a impedir, a negar a vida que se tem (enquanto não se re-viver a vida que se não teve), sei que é irrisório o poder de tais sombras que um outro olhar prontamente dissiparia. Mas é isso mesmo: "outro olhar" (como o olhar de uma gaivota, que não é forçosamente o nosso). Mas "assistir" a tal sofrimento é também doloroso. E sobretudo porque no fundo pensamos que não nos resta mais do que "assistir". Porque a meada de tal sofrimento (de tais medos, de tais raivas) só desenredada pelos próprios pode servir de libertação. Dizemos: mas tu não vês que... E não, não vê, porque o que pode ver não é o que aí está (e que nós vemos), mas o que aí esteve (e já não está, mas estão as marcas) e nós não vemos. E (lá vem a gaivota...) também não sabemos o que é, que pode levantar tais medos, tais raivas, ou tais mistérios, sei lá.

politicamente correcto



há pouco, no tapete, no ginásio, calhou-me uma daquelas séries americanas (sem som, mas com legendas) que se passa num hospital, cheia de operações, de problemas sentimentais e humanos e ainda mais cheia de boas intenções e de lições morais engatilhadas. Tudo servido em péssimas traduções, com cenas de cafetaria coloquiais e espontâneas num vocabulário tirado directamente do dicionário (as pessoas "deparam-se" com problemas na vida, e usam o futuro simples a torto e a direito...), sempree com falsos amigos à espreita (depois de uma pausa, qualquer coisa que já não sei o quê "resumiu"..., e etc). Mas que se segue, e era sobre isto o sermão de hoje: aquilo tresanda ao politicamente correcto que agora se gasta (pelo menos nos eua) - a série é praticamente um mostruário de todas as minorias (pretos, aliás afro-americanos, indianos, japoneses e americanos de todas as cores e feitios, homossexuais e se calhar outras amostras da variedade do género humano, para que ninguém se possa sentir diminuído, menosprezado, segregado, discriminado... Há qualquer coisa nisto que cheira a sacristia, a uma beatice laica que agora se serve em todos os menus. Não é que haja nisto alguma coisa de novo. Desde que por cá andamos, provaelmente, que recorremos a mil e um artifícios semelhantes para esconjurar os medos, o que nos nega, o que nos humilha, o que nos interpela. Com mais ou menos eufemismos, com mais ou menos hipocrisia, acabamos sempre por recorrer ao desvio, ou ao atalho que nos evita vermo-nos cara a cara com o que mais tememos, ou escondemos, ou não queremos ver. Lembra-me um trolha que conheci em Bruxelas, um português que me contava as suas aventuras na Europa e que às tantas se sai com esta "desde que ando nisto da indústria da decoração"... Indústria da decoração, nada menos. E não como as aparências poderiam indicar nas obras, na construção civil, trolha, pintor, artista ou como aqui sem mais aquelas lhe chamavam.
Antes, talvez, tais esconjuros teriam mais a ver com os medos que deus nos deixou, com os desvios que rodeiam o santo nome de deus ou do seu temido adversário (não vá o diabo tecê-las... melhor será andar de bem com deus e o diabo) ou, sempre, com as regiões obscuras do corpo e dos seus mistérios. Num mundo laico e sem mistério, onde tudo salta á vista, são outros os deuses que mandam, são outros os medos que imperam e são outros os esconjuros que precisamos.
Que mal há nisso? que relentos há aí que nos fazem (mais, menos, um pouco) torcer o nariz? Alguém há tempos me dizia: há no politicamente correcto alguma coisa como os efeitos secundários de um bom medicamento. E teremos de nos decidir se o que importa ver e pesar são os exageros ridículos, a hipocrisia que se vê assim desimpedida de vir ao de cima e outros efeitos análogos; ou se é o facto de representarem a aceitação social, de certo modo, de valores e de princípios que deveriam ser espontâneos? Que mal tem a aceitação corrente, normal, dos direitos de todas as minorias, que mal tem o condenar e riscar do vocabulário os termos que discriminam, ofendem, humilham? Os exageros cairão por si e ficará o que correspoinde ao que há de mais autêntico, como o metal puro surge das escórias.
Também não está mal visto, como dizia o nosso sargento.
A seguir vêm a discussão das quotas (nos partidos, nas empresas, nos movimentos...). E alguém pergunta: na vida? E a discussão recomeça.
Lembra-me de um tipo que dizia: se queres o subsídio, pá, crias uma empresazinha, metes lá uma mulher, um jovem, um deficiente (ou menos válido) e um sindicalista e tens o subsídio garantido. Eram os tempos do politicamente correcto de Bruxelas a ver se os bons princípios pegavam por decreto. De certo modo... porque não?

in principio erat...



há sempre que começar por algum lado. foi hoje e agora e nem saberia explicxar bem porquê. a ideia mais mais no fundo disto é (talvez) a de dizer ao joão, agora, uma data de coisas que talvez um dia lhe dissesse e que ele então poderia entender e que não sei se esse dia. a primeira pessoa que me falou nisso foi a Mary. que há coisas que mais tarde vou querer lembrar, que o tempo esfuma a memória. que o joão mais tarde haverá de gostar de ssaber uma data de quandos (quando começou a andar, quando começou a falar, quando... ) e que haverá fotos, haverá vídeos, e quase todos serão de festas de anos e de momentos excepcionais. e que faltaria um dia a dia. bem... o blog seria um pouco isso. depois ao pensar na coisa mais de peerto percebi que seria também outras coias. e ao pensar ainda mais pensei que deveria ser o que fosse. como diz o outro las cosas son como son. e é isso que quero que sejam.
o nome. pensei em chamar-lhe o que mereceria que se chamasse, e que é um nome muito dp meu agrado há bastante tempo e que foi dando nome a uma série de coisas parecidas ao longo destes anos que cá ando: stercum suum cuique bene olet (e que eu traduzo muito desajeitadamente, mas para que se perceba por: a cada qual lhe cheira bem a sua merda, mas convenhamos que dito em latim o perfume é outro...
ficou mane tecel fares e também este nome me anda atrás como uma cauda de alusões e de coisas por dizer. pronto vá de blogar então.