quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

2012 - uma boa colheita



2012 não foi o melhor ano das nossas vidas. houve muita tristeza, muita ansiedade, muita incerteza para o poder ser. Mas para o joão, que de certo modo é poupado  a muito do que por aqui se passa, foi um ano de grandes conquistas: foi o ano em que começou a ler, em que aprendeu a andar de bicicleta com um certo à-vontade, e em que começou a nadar.



Já no fim das férias de verão tinha começado a tresler umas coisas a que aos poucos ia percebendo o sentido. mas agora é diferente: todos so dias, depois de lermos os nossos capítulos das aventuras dos cinco (começámos por ler um por dia, depois pedinchou um à tarde e outro á noite e agora são normalmente três capítulos por dia!). estamos aqui, estamos a acabar a coleção. Mas depois vai-se deitar e põe-se a ler sozinho, por sua iniciativa outro livro qualquer. E na escola é muitas evzes escolhido para ler aos outros o plano do dia, ou outras coisas que fzem parte do dia a dia lá deles.
Nadar foi outra vitória - começou também no verão. Na piscina do Tó zé no Gerês foi o pontapé de saída. À vontade no meio dos primos, e com um empurrão decvisivo da cereja, começou a sentir-se à vontade na água. E agora na piscina dos anjos (uma vez por semana, e este mês duas vezes por semana) já se desenrasca como os outros. Não sabe mergulhar, tem mdeo de molhar a cabeça, não se atira das bordas da piscina, mas dentro da água já se mexe muito à vontade. 
E a bicicleta, então, foi um ver se te avias. Andou muito tempo hesitante. Com várias tentativas falhas. E voltou até às rodinhas de apoio. Até que a Cereja o subornou: se tirasse as rodinhas tinha uma prenda extra no Natal. Era o pretexto que lhe faltava. Tirou as rodinhasd e aqui vai ele. Agora gaba-se das proezas que vai arriscando: já dei a volta, viste? já sei arrancar sem ajuda, já...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

como um jogo de roda que acaba


não imaginava que a morte da nicha me iria abalar assim. não é que nos víssemos muitas vezes. e quando nos víamos era quase sempre à volta das festas de anos dos miúdos. um ou outro jantarinho. os encontros nas férias, na praia, na roda de amigos e da família. então porquê? e começo então a ouvir de outro modo uma outra maneira de falar entre as pessoas a quem queremos bem: porque percorremos, porque viemos de caminhos próximos, porque há muitas coisas que não se dizem porque se vão vivendo dentro de um não-sei-quê que nos é comum, porque há uma eterna conversa sem palavras numa maneira de viver que se partilha, feita de pessoas, de escolhas e de coisas ainda mais ténues e definitivas. E há outra coisa: com o Jorge, com a Filipa, sobretudo, mas também com o kiko e a sua tribo e amigos como a Isabel e o Sebastião, ela fazia parte de um círculo em que eu me sentia envolvido, de que sentia fazer parte. Gosto do Jorge, gosto da Filipa, gosto dessas pessoas. quando a nicha morre é como se numa roda de gente de mãos dadas uma faltasse, rompesse o círculo, como se assim pusesse fim ao jogo a que todos brincávamos. e uma pessoa torna-se mais, muito mais, do que simplesmente uma pessoa que deixa o jogo. é o jogo que fica incompleto. e há uma tristeza muito grande neste sentir de que há muitas coisas (todas simples, todas sem palavras para as nomear) que sentimos que desapareceram.
Temos na nossa cozinha um tabuleiro que a Nicha pintou para nos oferecer, a mim e à cereja, pelo nosso casamento. é uma presença constante, e uma lembrança de uma ternura especial, que foge às palavras, que diz de outro modo o que quer dizer. e há também a régua desenhada e pintada por ela, que temos à entrada de casa e onde medimos a altura do joão no dia em que faz anos. também assim, discreta, mas bem presente, temos o olá da nicha a receber-nos ao chegar a casa. são as duas coisas obras simples, quase ingénuas, e muito bonitas. há ali muito da nicha: o vagar, se calhar a paciência,  com que fazia as coisas, o tempo que se dava para as "ver" antes de as fazer. em silêncio. não sabíamos de nada: e um dia ela aparece e diz aqui têm, é para  vocês.



sábado, 17 de novembro de 2012

novas da ilha (repescado de fevereiro)



encontrei isto nos "rascunhos", em fevereiro, mas não sei como o enfiar lá outra vez. fica aqui... (mas tb não faz mal ;-)

à saída da escola, diz-me o joão: pai sabes o que aconteceu hoje à lontrinha? eu não sabia, claro. a lontrinha estava a brincar e depois o leão sem querer deu-lhe um encontrão e ela ficou lesionada numa pata e teve de ir ao hospital.
mais uma "dramatização" do joão. há dias no recreio o joão apanhou com o triciclo do gustavo num jielho e ficou a manquejar um pouco. demos-lhe antiinflamatório por uns dias, mas como a coisa se prolongava decidimos levá-lo ao hospital. de manhã a filipa ia à sala fazer umas "experiências" para os meninos verem, e portanto de manhã não podia ser. o joão não queria faltar, claro. a cereja tinha tanto que fazer na faculdade que não dava para ir. fui eu buscá-lo à escola a seguir ao almoço e fomos ao dona estefânia: nada de grave. mais inflamatório por uns dias e esperamos que vá tudo ao sítio.
é também para o que serve a lontrinha. que agora tem catorze anos, anda na universidade, e já pouco brinca com os outros filhotes. é a estrela da família, à medida que aos poucos a "mãe do ursinho", o eufemismo a que o joão recorre para não dizer "a minha mulher", o que já raramente diz, só depois de instado. mas é ela que põe os dvds para todos verem. quase sempre as histórias do lince.
perguntei-lhe quem era o lince, para tentar perceber de onde aparecia mais esta personagem. não existe, diz o joão. é uma personagem dos filmes.
ah, está bem.

primeira epístola aos filismeus



havia de te dizer que os dias vão passando. e parece-me agora literal este ir passando, como o grande rio tranquilo de que só as entranhas conhecem as agruras. que não são menos os cuidados que arrancamos de dentro, que aqueles que nos caem em cima. tudo começa, aliás, pelo dar-lhe nome.

passeio na lezíria



quarta foi dia de greve geral, a escola ficou fechada. telefonei ao zé viana a saber se a passarada fazia greve. que não, disse ele. e então lá fomos ao passeio tantas vezes adiado: mostrar as cegonhas ao joão. a colheita do arroz está a chegar ao fim e a passarada já deu por isso, e muitos começaram a emigrar- mas há outros que se deixam ficar por cá. há por ali comidinha e bichinhos pequenos que cheguam para todos. Lá andavam: bandos imensos de íbis, a rodopiar ao sabor dos voos picados dos tartaranhões. uma massa imensa de flamingos indiferentes a tudo que não fosse o lodo das valas e dos charcos. ia à espera daqueles voos conjuntos que fazem as fotografias tão bonitas, mas qual quê? Nem se mexeram. E também muitas cegonhas e uma variedade enorme de pássaros que o Zé ia apontando: cotovias, cartaxos, arvelinhas, e sei lá que mais. No regresso o joão disse-me logo: vou fazer um desenho das aves e depois tu fazes uma fotografia (scanner) e mandas ao zé. E fez mesmo. está lindo e o zé já respondeu a dizer que identificou aquilo tudo. aquela mancha castanha ao fundo, mergulhado num de charco azul é um corvo marinho (que também lá vimos!).
O joão também quis trazer uma planta de arroz, com espiga inteira, para depois fazer "uma apresentação" na sala. Disse depois que nenhum dos meninos tinha visto como era o arroz antes de estar no prato. nem a Ana, a professora...


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

bichos estranhos



de há uns tempos para cá, os desenhos do joão encheram-se de uma fauna bizarra, uma bicharada que já nada tem a ver com as vaquinhas e os cavalos de antes. também as histórias da ilha aparecem agora povoadas de vez em quando de dragões, minotauros e outros monstros que nunca por aí tinham aparecido. A explicação é fácil, afinal: uma colecção de cromos com animais fantasiosos e que ele usa como cartas para jogar, para fazer combinações e séries que desafiam a lógica. e a minha paciência, quando tenho de jogar com ele, sem regras, ou regras inventadas na altura, e sem fim à vista. mais não é do que uma maneira de experimentar novas histórias e novas fantasias. é o mundo que começa agora a desenhar-se com os novos amigos da primeira classe (é verdade: o joão começou este ano a escola "a sério!").
Quando o vou buscar à escola, o caminho até casa serve para me contar o que se passou de interessante na escola e também para me pôr a par das notícias da ilha. "Hoje eu tinha marcado uma guerra, diz ele. a lontrinha é que trata de tudo, já sabes. eu agora não posso, com a escola. É ela e os filhotes. Arma as catapultas, prepara os canhões e tudo. depois fazemos uma pausa para um almocinho e depois quando aparece o Falcão Negro é que começa mesmo a guerra." Há muitas guerras naquela ilha. Lutas ingénuas, com as armas que ele constroi com os legos ou com o playmobil. Algumas personagens foram-se esfumando e de certo só sei que é ele o rei, ou o comandante, que é agora um arquipélago (palavra nova) e que a lontrinha tem um papel de comando. Os inimigos são invariavelmente a Águia Negra ou o Falcão Negro, mas nada impede que outros apareçam de vez em quando.
Começámos a ler os livros dos Cinco. Alguns que a Rita ainda guardava dos seus tempos de criança. outros que trazemos das bibliotecas municipais. e aos poucos também essas aventuras vão-se insinuando nas histórias dele. Ontem lemos um capítulo em que havia um rapto. "Rapto", uma palavra nova e cheia de medos escondidos. À noite quis saber tudo: se em lisboa também havia raptos, se também raptavam pobres. e médios? (médios devemos ser nós, nem ricos nem pobres).
Começámos por ler um capítulo por dia, antes de adormecer. Agora quer sempre também um ao chegar da escola. E quando o livro está a chegar ao fim e o suspense é demasiado, acaba por conseguir que lhe leia mais um ainda.
Anda entusiasmadíssiomo com a escola. Faz fichas de matemática (o que ele mais gosta) e escreve palavras no quadro.
NO fim das férias tinha descdoberto que conseguia ler. Agora não pára: lê tudo o que encontra, os nomes das ruas, os títulos dos jornais... Começa por ler (soletrar, quase) palavra a palavra e depois repete a frase fascinado ao descobrir-lhe o sentido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

um mundo em aberto



Todos os dias, pela manhã, a caminho da escola, ou no regresso, o João vai-nos contando o que se passa na sua ilha. Ontem ao jantar contou que lá não há diferenças nos ordenados: quando vê que alguém ganha mil e outro só ganha cem, ele diz: tu também passas a ganhar mil. E como ele é o único que decide na ilha, é assim que ficam as coisas.
Ontem tinha ido à manifestação do primeiro de Maio, com a Cereja e a Filipa. Eu fiqeui em casa a curtir uma gripe que não me larga. Veio de lá a repetir as palavras de ordem. Depois pediu-me para as escrever. Quer levá-las para a escola. Também à volta dele toda a gente fala em crise e em problemas no trabalho. As preocupações sociais devem vir-lhe daí.
Na escola devem ter falado no 25 de Abril. E o João disse-nos que tinha contado na sala que eu tinha dito ao Salazar que não queria ir para a guerra matar gente que não me fez mal nenhum e depois fui-me embora para França. É a versão dele do "meu" 25 de Abril.



Vê-se também por outras coisas que começa a querer organizar o mundo. Há dias fez um desenho do quarto (e pediu-me para pôr lá, no desenho, um relógio, não sei porquê) está lá tudo: o pequeno candeeiro (agora partido), a cama, a estante, e um desenho com a nossa família toda sorridente e de mãos dadas. Fez também um desenho da nossa família e da nossa casa. E um desenho para mim, só para mim. Deve ser para "compensar" os muitos que faz para a Cereja.
Todos os dias lemos uma história e agora o joão quer sempre ler os títulos. Quase sempre consegue. Não é que nós alimentemos o esforço. Preferimos que siga o ritmo da escola. Além disso, nestas tentativas ele segue o método fonético (juntando as sílabas) e como na escola seguem (seguirão...) o método global, não queremos interferir e criar confusões, que não sabemos resolvar. Tem tempo! Mas vê-se que anda impaciente por começar a ler. E ir para a escola dos crescidos. E aprender as coisas todas que ainda há para aprender.