sábado, 17 de novembro de 2012

primeira epístola aos filismeus



havia de te dizer que os dias vão passando. e parece-me agora literal este ir passando, como o grande rio tranquilo de que só as entranhas conhecem as agruras. que não são menos os cuidados que arrancamos de dentro, que aqueles que nos caem em cima. tudo começa, aliás, pelo dar-lhe nome.

passeio na lezíria



quarta foi dia de greve geral, a escola ficou fechada. telefonei ao zé viana a saber se a passarada fazia greve. que não, disse ele. e então lá fomos ao passeio tantas vezes adiado: mostrar as cegonhas ao joão. a colheita do arroz está a chegar ao fim e a passarada já deu por isso, e muitos começaram a emigrar- mas há outros que se deixam ficar por cá. há por ali comidinha e bichinhos pequenos que cheguam para todos. Lá andavam: bandos imensos de íbis, a rodopiar ao sabor dos voos picados dos tartaranhões. uma massa imensa de flamingos indiferentes a tudo que não fosse o lodo das valas e dos charcos. ia à espera daqueles voos conjuntos que fazem as fotografias tão bonitas, mas qual quê? Nem se mexeram. E também muitas cegonhas e uma variedade enorme de pássaros que o Zé ia apontando: cotovias, cartaxos, arvelinhas, e sei lá que mais. No regresso o joão disse-me logo: vou fazer um desenho das aves e depois tu fazes uma fotografia (scanner) e mandas ao zé. E fez mesmo. está lindo e o zé já respondeu a dizer que identificou aquilo tudo. aquela mancha castanha ao fundo, mergulhado num de charco azul é um corvo marinho (que também lá vimos!).
O joão também quis trazer uma planta de arroz, com espiga inteira, para depois fazer "uma apresentação" na sala. Disse depois que nenhum dos meninos tinha visto como era o arroz antes de estar no prato. nem a Ana, a professora...


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

bichos estranhos



de há uns tempos para cá, os desenhos do joão encheram-se de uma fauna bizarra, uma bicharada que já nada tem a ver com as vaquinhas e os cavalos de antes. também as histórias da ilha aparecem agora povoadas de vez em quando de dragões, minotauros e outros monstros que nunca por aí tinham aparecido. A explicação é fácil, afinal: uma colecção de cromos com animais fantasiosos e que ele usa como cartas para jogar, para fazer combinações e séries que desafiam a lógica. e a minha paciência, quando tenho de jogar com ele, sem regras, ou regras inventadas na altura, e sem fim à vista. mais não é do que uma maneira de experimentar novas histórias e novas fantasias. é o mundo que começa agora a desenhar-se com os novos amigos da primeira classe (é verdade: o joão começou este ano a escola "a sério!").
Quando o vou buscar à escola, o caminho até casa serve para me contar o que se passou de interessante na escola e também para me pôr a par das notícias da ilha. "Hoje eu tinha marcado uma guerra, diz ele. a lontrinha é que trata de tudo, já sabes. eu agora não posso, com a escola. É ela e os filhotes. Arma as catapultas, prepara os canhões e tudo. depois fazemos uma pausa para um almocinho e depois quando aparece o Falcão Negro é que começa mesmo a guerra." Há muitas guerras naquela ilha. Lutas ingénuas, com as armas que ele constroi com os legos ou com o playmobil. Algumas personagens foram-se esfumando e de certo só sei que é ele o rei, ou o comandante, que é agora um arquipélago (palavra nova) e que a lontrinha tem um papel de comando. Os inimigos são invariavelmente a Águia Negra ou o Falcão Negro, mas nada impede que outros apareçam de vez em quando.
Começámos a ler os livros dos Cinco. Alguns que a Rita ainda guardava dos seus tempos de criança. outros que trazemos das bibliotecas municipais. e aos poucos também essas aventuras vão-se insinuando nas histórias dele. Ontem lemos um capítulo em que havia um rapto. "Rapto", uma palavra nova e cheia de medos escondidos. À noite quis saber tudo: se em lisboa também havia raptos, se também raptavam pobres. e médios? (médios devemos ser nós, nem ricos nem pobres).
Começámos por ler um capítulo por dia, antes de adormecer. Agora quer sempre também um ao chegar da escola. E quando o livro está a chegar ao fim e o suspense é demasiado, acaba por conseguir que lhe leia mais um ainda.
Anda entusiasmadíssiomo com a escola. Faz fichas de matemática (o que ele mais gosta) e escreve palavras no quadro.
NO fim das férias tinha descdoberto que conseguia ler. Agora não pára: lê tudo o que encontra, os nomes das ruas, os títulos dos jornais... Começa por ler (soletrar, quase) palavra a palavra e depois repete a frase fascinado ao descobrir-lhe o sentido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

um mundo em aberto



Todos os dias, pela manhã, a caminho da escola, ou no regresso, o João vai-nos contando o que se passa na sua ilha. Ontem ao jantar contou que lá não há diferenças nos ordenados: quando vê que alguém ganha mil e outro só ganha cem, ele diz: tu também passas a ganhar mil. E como ele é o único que decide na ilha, é assim que ficam as coisas.
Ontem tinha ido à manifestação do primeiro de Maio, com a Cereja e a Filipa. Eu fiqeui em casa a curtir uma gripe que não me larga. Veio de lá a repetir as palavras de ordem. Depois pediu-me para as escrever. Quer levá-las para a escola. Também à volta dele toda a gente fala em crise e em problemas no trabalho. As preocupações sociais devem vir-lhe daí.
Na escola devem ter falado no 25 de Abril. E o João disse-nos que tinha contado na sala que eu tinha dito ao Salazar que não queria ir para a guerra matar gente que não me fez mal nenhum e depois fui-me embora para França. É a versão dele do "meu" 25 de Abril.



Vê-se também por outras coisas que começa a querer organizar o mundo. Há dias fez um desenho do quarto (e pediu-me para pôr lá, no desenho, um relógio, não sei porquê) está lá tudo: o pequeno candeeiro (agora partido), a cama, a estante, e um desenho com a nossa família toda sorridente e de mãos dadas. Fez também um desenho da nossa família e da nossa casa. E um desenho para mim, só para mim. Deve ser para "compensar" os muitos que faz para a Cereja.
Todos os dias lemos uma história e agora o joão quer sempre ler os títulos. Quase sempre consegue. Não é que nós alimentemos o esforço. Preferimos que siga o ritmo da escola. Além disso, nestas tentativas ele segue o método fonético (juntando as sílabas) e como na escola seguem (seguirão...) o método global, não queremos interferir e criar confusões, que não sabemos resolvar. Tem tempo! Mas vê-se que anda impaciente por começar a ler. E ir para a escola dos crescidos. E aprender as coisas todas que ainda há para aprender.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

lodão. lodoeiro




Há dias esteve cá o Richard. De passagem (andava a mostrar a cidade a uma amiga). Disse-me que no próximo livro dele há uma personagem que mora aqui no Largo. Perguntou-me o nome das árvores que aqui há, além da palmeira. Tive de investigar (na net, há uma lista das árvores dos jardins de Lisboa). São lódãos, ou lodoeiros, ou agreiras. Ficam bem a apajar a palmeira soberana, no meio, se calhar com a morte anunciada.
No Algarve, não tinham conta as palmeiras cortadas e doentes. Um mau sinal. O bicho já por lá passou: um escaravelho vermelhusco, com uma espécie de ferrão na cabeça. Foi o primeiro que vi, em Cabanas, mesmo no jardim do Manel.

Onda má



Nas férias da Páscoa fomos passar uns dias a Cabanas, em casa do Manel e da Teresa. E os filhos (adoráveis). Está quase bom do cancro com que teve de se haver há tempos, mas estava apreensivo com uns testes que tinha feito antes de vir para cá. De resto, sempre o mesmo: bom copo e bom garfo, e ótimo cozinheiro. Quase não dava para acreditar. Mas ele não esquece, e dizia: vê lá se agora não ficas tanto tempo sem aparecer. Antes que eu morra...
Sinto o coração apertado ao ouvi-lo.
Apareceu lá a Rosinha, também ela a debater-se com um cancro que parece curado. Mas quem pode esquecer que pode voltar? A vida dela levou uma grande volta.
Parece que os meus amigos andam todos em maré negra. A Nicha é o caso mais grave. O cancro (dos pulmões) é avassalador. Quando estou com ela vejo-a animada, cheia de graça, e de projectos. Mas ela avisa: não te enganes, isto é da morfina. Mas deixo-me enganar, como ela se deixa.
E a Luísa. Mas parece que no caso dela foi a tempo. Mas tem de estar sempre atenta. E vê-se que isso a consome.
Será dos tempos. Quando tudo se aperta à nossa volta e a vida de todos os dias deixa de ser como a de outros dias. Procuramos os amigos, à espera das coisas que não mudam, do que fica mesmo quando sopram ventos mais azedos. Todos buscamos um sítio firme onde ter pé quando sentimos subir a maré de infelicidade. E apercebemo-nos de que também nisso estamos juntos.



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

rituais de saudação



ao começar o dia o joão é uma revoada de alegria e entusiasmo pela casa toda. Vem ter comigo à cama, deita-se em cima de mim, aos beijinhos e abraços. Hoje deu-me uma turrinha na testa e disse: "vamos fazer como dantes". "Como dantes? Como era?" "Não sabes? Dávamos uma turrinha e depois esfregávamos os narizes e depois... O que era mais?" "Ah", disse eu "e tocava-te no umbigo e puxava-te a orelha esquerda e depois a direita" "E mais?" "Não me lembro de mais nada."
E ficamos ali na risota a esfregar os narizes e a puxar as orelhas um ao outro.