terça-feira, 13 de dezembro de 2011

a coragem do leãozinho




quando hoje saímos da escola, o joão contou-me que hoje todos os filhotes dele tinham ido apanhar vacinas. E sabes quem se portou melhor? perguntou ele. eu não sabia, claro. o leãozinho, que é o mais novo. Todos tiveram bom (das patas dianteiras) e "mais ou menos" (das patas traseiras), a lontrinha, o pelicano, os ursinhos, todos. mas o leão teve "muito bom" nas duas patas. Deram-lhe um diploma e tudo.
Bem, hoje de manhã o joão tinha ido ao Centro de Saúde apanhar as vacinas dos 5 anos. A Cereja levou-o, mas depois telefonou a dizer que estava atrasado e que ela tinha de ir embora e então eu fui lá ter. O Centro está muito mudado: foi tudo renovado, tem um aspecto impecável, limpo e eficiente. Mas na sala de vacinas agora não tem brinquedos. O joão reparou logo e ficou triste. gostava de ir lá e brincar. pegeui nele ao colo para a enfermeira lhe dar as picas. duas, uma em cada braço. e o joão portou-se como um valente, como um leão, ia eu a dizer. E no fim a enfermeira deu-lhe um diploma a atestar o seu comportamento heróico.
O João estava orgulhoso e disse-me que depois quando chegou à escola tinha ido às outras quatro salas mostar aos meninos todos o seu diploma.
Também aqui, o joão recorreu ao mesmo truque de "dramatizar" a situação para melhor a "digerir". Uma "pica" não é um acidente inocente: é uma intrusão no nosso corpo (e que dói ainda por cima, pouco que seja). E numa idade em que a relação dele com o seu próprio corpo não é coisa claramente definida, estes momentos são coisas sérias.
Noutro registo, digamos, é nesta altura também que ele (e os amigos dele, claro) passam o tempo a falr em cocós e chichis, com muitos risos e brincadeiras. Uma parte é o gozo do interdito, de romper as regras do que parece mal; mas por outro lado não deixa de ser também o interesse por tudo o que está ligado ao corpo e às funções corporais.
Estou convencido que a visita às salas em parte era para poder mostar ao seu novo amigo Vasco (da sala da Sónia) que "também" se tinha portado bem. No fim de semna o Vasco estev cá a brincar com ele e contou-lhe que tinha tomado as vacinas e que se tinha portado muito bem, só tinha chorado um bocadinho. O joão passou depois o tempo a lembrar-nos que tinha de ir às vacinas. Devia trazer aquela fisgada...
O Vasco é um menino que ele conheceu fora da sala, no recreio, penso eu. E tornaram-se amigos. Depois combinaram os dois irem brincar para casa um do outro. E num dia em que os pais estavam na escola eles decidiram apresentar os pais uns aos outros para depois poderem combinar a troca.
Desta vez veio cá o Vasco, noutra ocasião irá o joão a casa dele.
Agora diz: os meus dois grandes amigos são o Vasco e o Jorge (da sala dele)

Um livro para os amigos



andamos a fazer um livro, eu e o joão. começámos por pensar fazer um livrinho para oferecer à tia lurdes. mas depois vinha aí o natal e o novo ano e tal e decidimos que íamos fazer cópias e oferecer aos nossos amigos. eu fazia o texto (já estava feito - é a história dos três cavalinhos que às vezes leio ao joão) e ele fazia os desenhos. disse logo que gostava muito de
desenhar cavalos. depois disse-lhe que também havia um cavaleiro muito rico e um guerreiro e um poeta. e ele ia dizendo que desenhava muito bem cavaleiros. confiança não lhe falta!
diz ele: depois pões lá história de zé lima e
ilustração de joão lima. está bem, disse eu. E a mãe? a mãe podia fazer a capa em pano.
depois de falarmos nisso, pensei que podíamos fazer a capa com os cavalinhos de pano que a cereja fazia.
mas claro a capacidade de concentração do joão é ainda limitada. e o livrinho vai-se fa
zendo ao ritmo de uma página por dia. quando o vou buscar à escola combinamos o que vamos fazer a seguir e eu lá vou empurrando as ilustrações. Como são só umas oito páginas...














TRÊS CAVALINHOS

Havia três cavalinhos,

Três cavalinhos havia

Um andava a galope

O outro seguia a trote

E o terceiro dormia.


Aí vão eles mundo fora

À procura, à procura

Andavam pelos caminhos

Mas que lindos cavalinhos

Mas que grande aventura.



O primeiro cavalinho

Foi para longe guerrear

Fez a paz e fez a guerra

Para ser dono da terra

E sobre todos reinar.


Era grande o seu poder

Rei de toda a nação

Por todos era temido

Por todos obedecido

Mas amado, isso não.


O segundo cavalinho

Partiu a fazer riqueza

Juntou jóias, juntou ouro

Regressou com um tesouro

Casado com uma princesa.


Toda a gente à sua volta

Pedia favores, dinheiro

Era de todos invejado

Sem nunca ter a seu lado

Um amigo verdadeiro.


O terceiro cavalinho

Ao sabor da fantasia

Correu praias, correu montes

Bebeu em todas as fontes

Das terras da alegria


Teve amigos, teve amores

Que tal era o seu viver

De nada era invejoso

Nem rico, nem poderoso

Que não buscava o poder.


Chegou mais longe e mais viu

O cavalinho risonho

Que se dormia sonhava

E sonhando imaginava

Que toda a vida era Sonho.



sábado, 19 de novembro de 2011

sábado de manhã (2)




Há agora em Lisboa

bandos de papagaios que invadem às vezes

o bairro num alarido de cores e sol

que só conhecíamos dos filmes

ou das histórias que nos contam

Acorro à janela espantado

e surpreendo quase um sorriso

no aceno novo

da palmeira do largo.


* * *


Este menino

Este menino ali

entregue aos seus castelos, barcos, lobos

que logo apaga e volta a erguer

como ilhas, casas, dragões

não sou eu já, que dele me perdi

mas reconheço ainda

o mesmo jeito

o mesmo olhar desprendido

sobre as coisas

a querer ver além do nome

da aparência

o coração que nelas possa bater.


sábado de manhã

hoje a luisinha veio cá ficar. mal acordaram, ela e o joão, puseram-se a construir o mundo deles. daqui de cima só ouço uma ou outra coisa solta. o joão canta, deliciado com a companheira. não quiseram sequer tirar o pijama: esperam pela hora do almoço. vamos depois à feira da ladra. e depois será a vez do joão ir dormir a casa dela, mais exactamente do nuno, com quem passa desta vez o fim de semana.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

de bicicleta


no passado domingo o joão andou pela primeira vez de bicicleta (sem ninguém a aguentá-lo por trás). é só para ficar registado. fomos para a beira-rio perto do teatro camões e do oceanário. o joão sabia para o que ia: decidido ao agora ou nunca. ainda andámos um bocado com a mão no selim a ampará-lo, a berrar pedala pedala. depois larguei-o. e ele seguiu a princípio sem dar por que o tinha largado. mas depois corri ao lado dele a animá-lo. estava orgulhosíssimo (ele e eu e a cereja, claro).

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

nem sei se



o tempo esse ladrão

não deixem à solta o tempo

ou sem açaimo

ladra-nos às canelas as garras de lume

fincadas numa palavra

a que já esquecêramos

um amigo uma casa onde morámos

e mal queremos atentar

ver melhor

de nós já só avistamos uma sombra

um vulto que se desfaz ao longe

ou se volta a dizer adeus



do outro lado

eu a bem dizer pouco sei da vida

viver foi para mim durante muito tempo

o hábito de viver

mas ainda assim inquieto

de ouvido à escuta

dos rumores que chegam do quarto

onde o filho dorme

do outro lado

onde se ouvem as conversas

do outro lado

não é que não possa falar de outras coisas

de quando o mundo se abria em dois

como um fruto

e dele nascia o dia

agora irrepetível

mas é de outras coisas que me pedem que fale.



lembranças à varanda


floriram as lembranças

que tenho na varanda

todos agora podem ver da rua

como encolheram com os primeiros frios

e se tornam amenas quase íntimas

com um gesto desprevenido

alguma palavra que se ouça

de alguém ao passar

abrem-se como braços vorazes

ramificam-se pressurosas

e já se vêem as noites sem sono

as conversas confusas com os amigos

noutros tempos

irrompem como folhas inquietas

renovos tenteantes

enquanto a água corre pela memória fora

até me surgirem nos braços

implacáveis como uma criança



não sei se


supondo agora que sou eu que falo

que sou eu o homem que irrompe ileso

do nevoeiro da infância

e o tempo possível

entre a infância e a amarga contabilidade dos dias

passados longe do mar

dos pássaros das conversas das crianças

como um bicho ferido

arrasto-me na terra e no frio

escavo um refúgio na memória

supondo que sou eu

aquele que tão perfeitamente

por mim se faz passar

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

e vão 65...



no dia certo, logo pela manhã. o joão entrou no quarto, deitou-se a meu lado, quase em cima de mim, e cantou-me os parabéns a você. todo. e no fim: "... para o menino paiii uma salva de palmas."
depois tive mais prendas, mas esta foi a mais bonita de todas. depois houve ainda: um quadro, em tela!!!, pintado por ele em segredo; umas pantufas dadas pela cereja, muito quentinhas; um tabuleiro para tomar o chá, da lurdes; e à noite a cereja preparou uma outra surpresa: tínhamos combinado ir jantar fora, ao restaurante italiano perto do rio. o que eu não sabia é que iam estar lá tb a luísa e o amadeu e a sua anamaria. no momento em que chegámos um barco imenso, daqueles cruzeiros que levam uma cidade de um sítio para outro, preparava-se para partir. gira sobre si próprio, dir-se-ia, vira a proa e lá vai ele. assim eu: nova corrida. nova viagem, coo nas feiras da minha infância. e a mresma descuidada incerteza também.
de certo modo é já mais um tempo adversário do que aniversário, como diz o outro. que sou eu.