terça-feira, 13 de dezembro de 2011
a coragem do leãozinho
Um livro para os amigos

TRÊS CAVALINHOS
Havia três cavalinhos,
Três cavalinhos havia
Um andava a galope
O outro seguia a trote
E o terceiro dormia.
Aí vão eles mundo fora
À procura, à procura
Andavam pelos caminhos
Mas que lindos cavalinhos
Mas que grande aventura.
O primeiro cavalinho
Foi para longe guerrear
Fez a paz e fez a guerra
Para ser dono da terra
E sobre todos reinar.
Era grande o seu poder
Rei de toda a nação
Por todos era temido
Por todos obedecido
Mas amado, isso não.
O segundo cavalinho
Partiu a fazer riqueza
Juntou jóias, juntou ouro
Regressou com um tesouro
Casado com uma princesa.
Toda a gente à sua volta
Pedia favores, dinheiro
Era de todos invejado
Sem nunca ter a seu lado
Um amigo verdadeiro.
O terceiro cavalinho
Ao sabor da fantasia
Correu praias, correu montes
Bebeu em todas as fontes
Das terras da alegria
Teve amigos, teve amores
Que tal era o seu viver
De nada era invejoso
Nem rico, nem poderoso
Que não buscava o poder.
Chegou mais longe e mais viu
O cavalinho risonho
Que se dormia sonhava
E sonhando imaginava
Que toda a vida era Sonho.
sábado, 19 de novembro de 2011
sábado de manhã (2)
Há agora em Lisboa
bandos de papagaios que invadem às vezes
o bairro num alarido de cores e sol
que só conhecíamos dos filmes
ou das histórias que nos contam
Acorro à janela espantado
e surpreendo quase um sorriso
no aceno novo
da palmeira do largo.
* * *
Este menino
Este menino ali
entregue aos seus castelos, barcos, lobos
que logo apaga e volta a erguer
como ilhas, casas, dragões
não sou eu já, que dele me perdi
mas reconheço ainda
o mesmo jeito
o mesmo olhar desprendido
sobre as coisas
a querer ver além do nome
da aparência
o coração que nelas possa bater.
sábado de manhã
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
de bicicleta
no passado domingo o joão andou pela primeira vez de bicicleta (sem ninguém a aguentá-lo por trás). é só para ficar registado. fomos para a beira-rio perto do teatro camões e do oceanário. o joão sabia para o que ia: decidido ao agora ou nunca. ainda andámos um bocado com a mão no selim a ampará-lo, a berrar pedala pedala. depois larguei-o. e ele seguiu a princípio sem dar por que o tinha largado. mas depois corri ao lado dele a animá-lo. estava orgulhosíssimo (ele e eu e a cereja, claro).
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
nem sei se
o tempo esse ladrão
não deixem à solta o tempo
ou sem açaimo
ladra-nos às canelas as garras de lume
fincadas numa palavra
a que já esquecêramos
um amigo uma casa onde morámos
e mal queremos atentar
ver melhor
de nós já só avistamos uma sombra
um vulto que se desfaz ao longe
ou se volta a dizer adeus
do outro lado
eu a bem dizer pouco sei da vida
viver foi para mim durante muito tempo
o hábito de viver
mas ainda assim inquieto
de ouvido à escuta
dos rumores que chegam do quarto
onde o filho dorme
do outro lado
onde se ouvem as conversas
do outro lado
não é que não possa falar de outras coisas
de quando o mundo se abria em dois
como um fruto
e dele nascia o dia
agora irrepetível
mas é de outras coisas que me pedem que fale.
lembranças à varanda
floriram as lembranças
que tenho na varanda
todos agora podem ver da rua
como encolheram com os primeiros frios
e se tornam amenas quase íntimas
com um gesto desprevenido
alguma palavra que se ouça
de alguém ao passar
abrem-se como braços vorazes
ramificam-se pressurosas
e já se vêem as noites sem sono
as conversas confusas com os amigos
noutros tempos
irrompem como folhas inquietas
renovos tenteantes
enquanto a água corre pela memória fora
até me surgirem nos braços
implacáveis como uma criança
não sei se
supondo agora que sou eu que falo
que sou eu o homem que irrompe ileso
do nevoeiro da infância
e o tempo possível
entre a infância e a amarga contabilidade dos dias
passados longe do mar
dos pássaros das conversas das crianças
como um bicho ferido
arrasto-me na terra e no frio
escavo um refúgio na memória
supondo que sou eu
aquele que tão perfeitamente
por mim se faz passar